Setembro 30, 2022

Agricultura Internacional

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Norte da Europa vive à custa da agricultura intensiva portuguesa

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No norte da Europa consomem-se produtos hortofrutícolas à custa da agricultura intensiva praticada em Portugal, com recurso à exaustão de água e dos solos, em aparente contradição com o discurso de adaptação às alterações climáticas.

Em declarações à agência Lusa, Fátima Alves, doutorada em Sociologia e coordenadora, na Universidade Aberta, da extensão do Centro de Ecologia Funcional (CEF) da Universidade de Coimbra (UC), deu o exemplo dos frutos vermelhos produzidos no Alentejo, para constatar que o combate às alterações climáticas não se faz sem que haja uma participação integrada de todos os atores, sejam estes decisores políticos, empresas ou a população, e uma “refundação” da nossa relação com a Natureza.

“De um modo geral, o consumidor no norte da Europa – que não dispensa ao pequeno-almoço estes frutos vermelhos produzidos no Alentejo, em produção intensiva, com esgotamento da água, destruição dos solos e fazendo uso de agroquímicos – frequentemente ignora esse facto. Com o seu discurso ‘verde’ e de adaptação às alterações climáticas, vive, na verdade vivemos, confortavelmente à custa das agriculturas que destroem os solos em diversos países”, enfatizou Fátima Alves.

Para a investigadora, este “é um problema que tem de ser encarado de outra forma, de forma integrada”.

“Mas isso nunca é fácil, por causa dos interesses instalados e não é só no Alentejo, há já muitos ‘Alentejos’ em Portugal e em outros países europeus e não europeus. É urgente mudar o modelo de organização económica. Este não nos vai permitir sair desta crise”, alertou a socióloga.

Notando que, por exemplo, Espanha, “onde em alguns contextos já avançaram com a transição ecológica na agricultura para combater a destruição dos solos e a desertificação resultado da agricultura intensiva através do recurso à agricultura biológica”, Fátima Alves considerou que “ainda não é seguro saber se a solução vem por esse lado para resolver simultaneamente o problema alimentar e permitir a biodiversidade”.

Por outro lado, o aumento da população à escala global pressiona para que sejam consumidos mais recursos: “Ou seja, precisamos de alimentos, mas temos de encontrar formas de os produzir que sejam menos impactantes e mais sustentáveis, porque senão estamos aqui em movimentos completamente contraditórios e não vamos conseguir sair disto”, avisou a investigadora.

Sobre a criação de novas formas de organização social “que respeitem mais a relação com o ambiente”, Fátima Alves abordou a relação que, em Portugal, se estabelece com os espaços verdes, em particular as árvores, nomeadamente nos casos de requalificação urbana que as sacrificam, ou como as cidades “não estão preparadas para as ondas de calor”.

“E não estão porque não têm espaços verdes suficientes para amortecer esse calor e contribuir para um conforto térmico maior, que as casas, devido à sua construção e condições de habitabilidade, não proporcionam. As ruas, as praças e as casas que estão perto de árvores têm melhor qualidade ambiental”, observou Fátima Alves.

A investigadora defendeu, a esse propósito, que a existência de mais, e mais duradouras, ondas de calor “devia levar as cidades a promoverem uma relação diferente com as árvores”.

“De facto, elas produzem consequências positivas para a vida urbana. É preciso reequacionar a nossa relação com as árvores, que não pode continuar a ser predatória”, frisou.

A especialista do Centro de Ecologia Funcional da UC considerou, igualmente, que as alterações climáticas “não escolhem geografias para se manifestarem, nisso são democráticas, manifestam-se por todo o lado”.

Há, no entanto, “países que estão a sofrer mais do que outros” com as mudanças climáticas. No contexto europeu, claramente os países do sul da Europa são mais afetados e com consequências “cada vez mais gravosas” pela falta de água e a seca ou os incêndios florestais.

Fátima Alves destacou um documentário chamado “O Homem Comeu a Terra”, feito com base numa obra de investigadores franceses, para resumir que, pelo mundo, as responsabilidades sobre a atual situação divergem consoante os países.

“Apesar das alterações climáticas nos afetarem a todos, são aqueles que menos contribuem para elas os mais afetados. Neste contexto, não podemos exigir que um país que não tem saneamento, não tem água canalizada, seja privado de ter porque isso aumenta as emissões e contribui para o aquecimento global. Nós, ocidentais, que já chegámos aos limites dos limites das consequências, não podemos permitir isso”, argumentou.

E as mudanças climáticas “não são apenas biofísicas, são provocadas pela ação humana, que está nas suas causas”, precisou a cientista, aludindo, igualmente, à questão das desigualdades sociais.

“É uma questão central, porque as alterações climáticas vêm aprofundar as desigualdades sociais que existem. Isto tem de ser debatido, em múltiplas áreas, porque as pessoas e os seus territórios, os seus contextos, são elementos centrais”, sublinhou a investigadora do CEF.

Entre 2016 e 2017, Fátima Alves colaborou na coordenação, junto com outros três investigadores, do Plano Intermunicipal de Adaptação às Alteração Climáticas da Região de Coimbra, um documento de 1.265 páginas, organizado por áreas, que fez um diagnóstico da situação nos 19 municípios daquela comunidade intermunicipal do país e apresentou um conjunto de propostas e medidas de adaptação em cada setor.

O documento estratégico, elaborado por uma equipa multidisciplinar de cerca de 30 pessoas, oriundas de diversas entidades e centros de investigação, “é uma espécie de diagnóstico na região de Coimbra”, um relatório “que permite perceber as especificidades locais” e as disponibilidades de recursos ou as fragilidades e potencialidades de cada município e pressupõe que cada um destes construa o seu próprio plano.

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